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Coluna Cá Entre Nós Rio+20: Foi Bonita a Festa?

Rio+20: Foi bonita a festa?

Por: Vera Lucas

São Pedro, já sabendo que nada ia dar em nada, protestou com vários temporais – não deixando que os turistas aproveitassem as praias. De resto, teve de tudo. Os dias da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável começavam por volta das cinco da matina. O barulho dos aviões que faziam a segurança pelo ar, não deixavam ninguém segurar o travesseiro por mais tempo na terra. Os engarrafamentos, claro, foram monstruosos. O trânsito ficou caótico com a passagem das comitivas, das manifestações e a interdição de várias ruas. Os bairros Barra da Tijuca – onde se localiza o Centro de Convenções, e Copacabana, onde os estrangeiros estavam hospedados, viraram ameaças para assustar as criancinhas. “Se você não se comportar bem, vai dar uma volta lá no Riocentro.” Cruzes!

O encontro, que marcou os 20 anos após a Cúpula da Terra, também realizada no Rio, em 1992, e 40 anos depois em Estocolmo, tinha como objetivo estimular novas medidas rumo a uma economia verde. Tinha, mas não teve. A declaração concluída por negociadores,  e que ministros e chefes de Estado e governo preferiram lavar as mãos, colocou a economia verde apenas como um dos muitos caminhos para um desenvolvimento sustentável. Ou seja, um dia quem sabe, talvez…

Era muita enrolação mesmo, devidamente divulgada pela imprensa. O povo ocupou   as ruas e, cá entre nós, foi muito mais criativo de que Chefes de Estado que aqui vieram. O protesto na Vila Autódromo reuniu defensores da comunidade, ameaçada de remoção pelas obras da Olimpíada de 2016. Também tivemos manifestantes de movimentos indígenas contrários aos investimentos feitos em grandes empreendimentos na Amazônia e que causam o desmatamento. Mulheres de seios de fora denunciaram a violência doméstica e a falta de um trabalho digno. ONGs ambientalistas desceram o pau no  Novo Código Florestal e na construção da Usina de Belo Monte. Cerca de três mil pessoas caminharam desde o Aterro do Flamengo até a principal via do Centro da Cidade, a Rio Branco…É pouco ou quer mais? De maiô vermelho, short branco e um cocar de penas coloridas, Estrela, de cinco anos, moradora do Xingu, desenhava com giz símbolos pacifistas no asfalto, competindo com as motocicletas dos policiais. Vestido como a presidente Dilma Roussef, um homem carregava um estandarte com o mapa do Brasil. Lá pelas tantas, queimou o papel.

No Riocentro, a coisa cozinhava em fogo brando. Era proibido falar palavrão.  Então, o jeito foi ser sutil. Políticos veteranos e organizações ambientalistas declararam que “tudo foi um fracasso de liderança”. O vice-primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Nick Clegg, classificou o resultado das discussões como “insípido”. Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso,  a declaração “não produziu  benefícios para a proteção ambiental nem para o desenvolvimento humano.” Bárbara Stockling, chefe da ONG internacional Oxfam. afirmou que “a conferência foi vergonhosamente marcada pela ausência de progresso”. Ela lembrou,  com muita propriedade, para cerca de 130 chefes de Estado e governo, que  “ há mais pessoas com fome hoje do que em 1992, quando o mundo se reuniu pela última vez no Rio” .

Atualmente quase um bilhão de pessoas vive em fome crônica, enquanto outro bilhão não recebe nutrição adequada.

Foi bonita a festa? Não, não foi. No cardápio só teve pizza.

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